28 de março de 2019

policromática

você disse que gosta de olhos que têm gosto de perigo

os meus olhos te convidam à segurança e a calmaria do meu peito

como foi que te encarei por tanto tempo e achei que tu me enxergava

enquanto você ria, me acenava e ia embora sem afeto

como explicar que nossos olhos se cruzaram tantas vezes

se eu sempre fui a vidraçaria pela qual tu avistava outros rumos

eu, sem cores
tu, uma aquarela de desejos

meu destino é ser plano de fundo
pra tua exposição policromática

Por Aline Nobre

8 de março de 2019

[sobre o oito de março]


eu nunca fui de seguir o papel que me foi imposto pela sociedade
parece que veio de nascença o desejo de ser tudo aquilo que disseram que eu não podia

eu fui menina quieta, calminha
assim como manda o protocolo
mas eu também jogava futebol de travinha todo santo dia com os meninos da minha rua

eu fui tímida e reprimida
do jeito que o sistema gosta
mas de mim saía faíscas de que eu podia ir além e nunca subestimei minha capacidade intelectual frente aos meninos da escola

eu fui carinhosa e nunca fui agressiva
assim como me foi ensinado
mas eu sempre soube que sou forte (fisicamente mesmo) e eu sempre ganhava dos meninos nas competições de queda de braço

eu usava vestido e fechava bem as pernas
assim como como a voz social gritava na minha cabeça todo dia
mas eu também usava os uniformes de time e os tênis do meu irmão sempre que podia

eu segui todos os conselhos de não sair de perto de casa pra concluir o ensino superior perto da família
assim como me foi exigido quando cogitei sair do interior
mas eu escolhi uma faculdade de engenharia e hoje trabalho num meio majoritariamente masculino

eu segui os papéis de ser alguém agradável socialmente
mas sempre que eu abria a boca era chamada de “a do contra”
e ainda bem que eu abria
abri também os olhos

sou a mais nova da casa e primeira da família a conseguir finalizar o ensino superior
não porque as que vieram antes não são tão boas quanto eu
mas porque elas tiveram trabalho demais preparando o terreno pra eu chegar onde estou

eu reconheço que só posso ser tudo que sou
usar as roupas que uso
trabalhar onde trabalho
ter a formação que tenho
sair pros lugares que saio
enlaçar as mãos nas mãos que enlaço
falar as coisas que falo
escrever as coisas que escrevo

porque muitas mulheres vieram antes de mim
e lutaram por mim
é mais que minha obrigação lutar pra que as meninas que virão
possam fazer tudo que eu faço
sem precisarem se reafirmar a todo instante
como eu

eu sonho com o dia que este dia chegue

afinal, é pra isso que serve o oito de março
pra lembrarmos de tudo que conquistamos
agradecermos aquelas que vieram antes de nós
olhar pra tudo que ainda temos que conquistar
e deixar as forças de outras se juntarem as nossas pra mirarmos um outro horizonte possível

companheiras, avante!

28 de fevereiro de 2019

Uma voz serena


Dona Francilene morava sozinha numa casa muito simpática na rua da Prefeitura, perto o Bar da Erivanda, mas eu não a conhecia e nem tampouco tinha ouvido falar nada sobre ela.
Aconteceu que eu fui tocar violão numa missa de domingo, como faço de costume, e ela estava lá. Ela era uma dessas senhoras que parece que já fazem parte da arquitetura da igreja, como a imagem de Jesus crucificado, como os bancos, como o altar, como os ventiladores de parede. Ela sempre estava lá, sentada nos bancos do meio, misturada com os demais fiéis.
Mas neste dito domingo no final de 2015 ela deixou de ser apenas mais um elemento do ambiente dominical. No final da missa, quando eu estava apressadamente guardando o violão na capa, ela resolveu que era o dia de entrar na minha vida. Se achegou perto de mim, como quem queria conversar, e eu deixei. Ela começou a falar timidamente sobre eu tocar violão, me elogiou, eu agradeci e então ela chegou onde queria chegar: “eu também tocava violão quando era jovem”. Fiquei surpreendida e me interessei mais ainda pela conversa. A conversa não se alongou muito, mas resultou num convite pra eu ir ver o seu violão em sua casa.
            Demorei umas semanas pra finalmente visita-la e então ela me ligou reforçando o convite. E eu fui. Ela comprou guaraná especialmente pra mim, assim como fez todas as outras vezes que eu a visitei. Descobri que ela ainda tocava violão muito bem, inclusive melhor que eu. Pegava músicas de ouvido, me ensinou notas que “combinam”, tocou músicas de cantoria acompanhada das histórias de juventude que marcaram tais músicas, me mostrou os tapetes que ela fazia com retalhos de tecidos, os guarda-chuvas que ela concertava, contou sobre os seus dedinhos pequenos que foi um “mal” de nascença, falou como aprendeu a tocar violão, falou dos seus sonhos de juventude, do remédio novo que o médico tinha passado, sobre sua vinda pra Banabuiú sozinha, sobre um sobrinho que morou com ela uns dias e de mais um punhado de histórias.
            Na páscoa eu fui na casa dela de surpresa entregar uma lembrancinha que tinha feito com uns sabonetes e ela ficou tão agradecida que ficou sem graça, procurando algo pela casa pra me retribuir até que eu finalmente convenci de que ela não precisava me dar nada. Neste dia tirei uma foto sem que ela percebesse dela tocando violão.
            Eu fiz uma anotação mental pra me lembrar de comprar um dominó pra presenteá-la, pra que a gente jogasse quando eu fosse lá, mas acabei esquecendo.
            Minhas visitas começaram a ser menos frequentes. A faculdade começou a apertar e então eu comecei a ficar mais em Quixadá do que em Banabuiú. Ela as vezes me ligava e eu a encontrava nas missas dominicais, até que ela parou de ir à missa. Soube que ela não estava bem da saúde. Fiz uma outra nota mental de ir visita-la. Demorei e não houve tempo. Recebi a notícia. Era 2017.
            Passei muitos dias me sentindo mal e me lamentando por não ter estado com ela em seus últimos momentos e ao mesmo tempo grata por tê-la conhecido e me deixado cativar por aquela senhora tão doce. Quis escrever um poema, mas não consegui.
            Hoje enquanto eu caminhava na pracinha da igreja, as lembranças dela me atingiram em cheio e ficaram ecoando no meu peito. Decidi que além de guardá-la no peito, preciso guardá-la nas palavras também.
            Esta é Dona Francilene. E sou muito feliz de ter sido sua amiga.

18 de janeiro de 2019

eu queria dizer tanta coisa pra aline de 2009


eu queria dizer que ela é linda e que seu corpo é lindo, independente do que qualquer pessoa dissesse a respeito dele

eu queria dizer pra ela que se esconder não é a melhor saída e que sua risada estridente era muito gostosa e não deveria ser presa por nada e nem ninguém


eu queria dizer também que ela tem uma voz que precisa ser usada pra falar das coisas que ela sente e que sempre calar a faria sofrer bastante no futuro


eu queria dizer que não tem problema nenhum ela gostar de futebol e que isso não fazia dela menos menina do que as outras da sua turma


eu queria dizer pra ela que não tem nada de errado no seu corpo, nem cor, nem tamanho, nem pêlos e que um dia ela encontraria beleza em cada poro da sua pele


eu queria dizer que nem todas as pessoas são boas, mas que uma das coisas mais lindas nela era essa capacidade de acreditar na bondade da outra


eu queria dizer pra ela não se sentir tão pequena e que seu coração é mais lindo do que o estrelado céu que ela olhava toda noite da varanda


eu queria dizer pra ela não ter tanto medo de crescer e que futuramente ela não realizaria todos os seus sonhos, mas que ela conquistaria coisas tão melhores que ela nem imagina que são possíveis


eu queria dizer que ela não precisa se diminuir pra caber dentro das relações de amizade e que ela ainda conhecerá pessoas que vão valorizá-la por completo


eu queria dizer pra aline de 2009 que os próximos anos serão difíceis, mas serão melhores do que os que passaram, que ela vai conseguir superar os seus medos e que ela vai se orgulhar muito da mulher que ela será


aline de 2009, não se preocupe, você está indo bem.

22 de dezembro de 2018

FIM DE DANÇA

se você preferir
pode inventar uma estória chula sobre mim
dizer que eu jamais soube te cuidar
contar pra todo mundo que eu não sei o que é amar

você pode esquecer todas as noites que dormiu sob o meu peito
todos os dias que só eu te dei abrigo
todas as vezes que tentei te poupar dos perigos que existem na esquina

conta pros teus antigos amores
que eu não sou quem você pensava
nunca fui boa namorada
que meu egoísmo foi maior que eu

eu não me importo se você esquecer
que por você eu enfrentei o mundo
por você abandonei certezas
e somente pra você eu me mostrei completa

pode gritar aos quatros cantos
que não te dei romantismo
que eu não declarei-te amor
que jamais derramei versos para estes teus olhos cínicos

não cite nenhum poema que te escrevi à mão
não cante jamais aquela breve canção
que tem teu nome de tema-amor

pode espalhar que o amor se findou
que foi por mim que acabou
que minha mão o assassinou

só não esquece de falar
que se tem fim houve um começo
e neste dito dia do começo
foi o meu amor que te chamou a bailar

Aline Nobre

20 de outubro de 2018

DESTINO


o erro dela começou antes ainda dela nascer

pai preto pobre e alcoólatra
mãe preta pobre e que não tomou a pílula
não dava pra nascer diferente disto

preta e pobre
um fardo pesado demais pra se carregar
pra alguém que ainda nem viu a luz

“é menina”
segundo erro
nasceu mulher

e mulher carrega essa sorte
que mais parece com morte
de ser tratada menor

assim que saiu da barriga
pisou no chão do sertão
o terceiro erro
nasceu nordestina

e nascer aqui determina
que tem uma guerra em cada esquina
pra ser enfrentada debaixo do sol

nos seus primeiros anos de vida
o seu progenitor foi embora
virou filha de mãe solteira
quarto erro
e ganhou bônus na fábrica de desajustados

o pão de cada dia
ficou mais escasso
e do pão que o diabo amassou
todo dia engolia um pedaço

estudou e foi contra a sorte
ignorou os sinais de morte
e passou no vestibular

no primeiro ano deixou
não era coisa pra ela
não podia se dar ao luxo
e voltou para trabalhar

trabalhou em casa de família
quatro, cinco, seis anos
quinto erro
até que foi pra capital
e foi promovida a babá

se apaixonou por uma menina
sexto erro
se deixou levar pela paixão
era audácia demais pra ela
além de tudo ser sapatão

seu sétimo e maior erro
foi sair com a companheira
logo em época de eleição

foi espancada em nome de um homem
que diz querer o bem da nação

preta
pobre
mulher
nordestina
desajustada
empregada
e ainda por cima sapatão

viver é um privilégio
de quem não carrega predestinação
pra sofrer
que nem ela


Aline Nobre

20 de agosto de 2018

MÃO ÚNICA

hoje de manhã eu desisti de você
eram 8:37 quando desisti de você
meu coração apertou porque eu sei como vai ser daqui pra frente
eu vou parar de falar com você e então a gente vai se perder uma da outra porque eu sei que você não vai falar comigo
eu já não mais te enviarei seu horóscopo semanal que você respondia com o seu “gratidão” automático e sua falsa atenção
eu já não mais procurarei um poema aleatório pra te enviar só pra tentar fisgar tua atenção por alguns instantes
eu já não mais te enviarei os lançamentos musicais do mês na tentativa desesperada de você ouvir algo vindo de mim
eu já não mais responderei aos seus stories no instagram que você só replicava com um coração sem vida
eu já não mais contarei os dias pra tentar comemorar sozinha as datas que deveríamos comemorar juntas
eu já não mais irei insistir nessa relação fadada ao fracasso
não mais
faz um tempo que eu percebi que nossa relação é de mão única e eu sou a única que parece sentir de verdade por aqui
me pego pensando nos motivos que te fizeram navegar pra longe do meu cais e sempre acabo com a mesma conclusão:
porque você quis
doi pensar, eu até evito, mas é isso que aconteceu
você escolheu me deixar
e agora eu escolho nos abandonar

aline nobre

9 de julho de 2018

EU NUNCA FIZ DIETA


Quase todo mundo que conheço já fez dieta alguma vez na vida, seja por motivos de saúde, para perder uns quilos ou até mesmo para ganhar uns quilos, mas eu nunca fiz, e acho que isso diz muito sobre mim.
Eu sempre estive “acima” do peso segundo o que a sociedade diz ser o peso ideal, e seria mentira eu dizer que isso nunca me incomodou, porque incomodou, principalmente na adolescência que é quando as pressões para se enquadrar nos padrões sociais são mais intensas e cruéis, mas nem isso fez com que eu abrisse mão de ser quem eu sou para ser quem os outros esperam que eu seja.
Houve uma época em que eu não gostava nada do meu corpo, justamente por ele ser de diversas maneiras fora dos padrões; não tinha a forma ideal, o tamanho ideal, a cor ideal, a quantidade de pelos ideais, a textura ideal, nada era ideal segundo os padrões associados a uma pessoa do sexo feminino e adolescente, e foi dolorido aceitar que esse corpo era meu único lar possível.
Ser gorda, negra e peluda foi por muito tempo dolorido, mas hoje, uma pouco mais livre das influencias sociais e um pouco mais empoderada do meu eu, ser gorda, negra e peluda é orgulho e resistência. Tenho orgulho do meu lar.
Acredito que essa força para me manter resistente foi algo interior e íntimo, mas sei que só encontrei sentido nela quando conheci outras mulheres que também pensam assim, mulheres fortes, lindas e livres que em sua maioria foi o movimento feminista me apresentou.
Com essas mulheres eu aprendi que ser chamada de gorda não é xingamento e nem sempre é um comentário pejorativo, e eu sou gorda. Com essas mulheres eu aprendi que ser peluda não é um problema a ser solucionado, que ter pelos no rosto, nos braços e sobrancelha grossa não me tornam menos mulher e que esses pelos fazem parte de mim e não são nada feios, e eu sou peluda. Com essas mulheres eu aprendi que a cor da minha pele é bela, não sou morena, nem mulata e nem da cor do pecado, eu sou negra e minha pele é símbolo de luta, resistência e subversão.
E é por isso que eu preciso do feminismo. Me entendem? Eu preciso do feminismo para ser eu de maneira integral. Eu preciso do feminismo porque eu não quero precisar cortar partes minhas para me sentir aceita, porque eu já me aceito. Eu preciso do feminismo porque preciso me sustentar em outras mulheres para me sentir mais forte.
Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres negras tenham orgulho de a serem. Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres peludas tenham orgulho de a serem. Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres gordas tenham orgulho de a serem.
Eu preciso do feminismo porque eu nunca fiz dieta.

Aline Nobre

18 de junho de 2018

Outrossim

nosso tempo é todo nosso

não seguiu contagens
padrões
cronométricos

mas seguiu contagens
cálculos
herméticos

nada que se pode medir

eu me apaixonei antes mesmo dos nossos lábios se conhecerem

tentei contar até dez
mas antes do três eu já te amei

no primeiro suspiro
te falei
confessei

e você
outrossim

contei mais
até cinco

mas no dois
você sussurrou
"amor da minha vida"

hesitou
insegura
achou cedo
não queria me assustar

eu tremi
respirei
acolhi
com o coração sorrindo

antes do um
eu confirmei também em mim

sem contar:
outrossim.


- Aline Nobre

27 de maio de 2018

25 de maio de 2018

SORORIDADE

companheira, eu te enxergo
enxergo tua dor
teu pranto
teus medos
tua resistência

eu enxergo você

companheira, eu te enxergo
enxergo tuas vitórias
tua força
teus sonhos
tuas conquistas

eu enxergo você

eu te enxergo toda vez que denuncias
as violências nossas de cada dia
e também te enxergo quando sofres calada

eu te enxergo toda vez que renuncias
aos costumes patriarcais que te foi ensinado
e também te enxergo quando os reproduz

eu te enxergo toda vez que solta o verbo
e rompe o silêncio que te foi imposto
e te enxergo também quando se reprimes

eu te enxergo toda vez que derruba muros
e desafia o mundo que tenta te trancar
e te enxergo também quando os constrói

eu te enxergo toda vez que amas
sem temer o que te faz chorar
e te enxergo também quando tem medo de amar

eu te enxergo toda vez que se permite
fazer tudo aquilo que impediram de imaginar
e te enxergo também quando trancada em seu lar

eu te enxergo toda vez que és livre
sem ter medo de se aventurar
e te enxergo também quando abre mão da tua liberdade

eu te enxergo toda vez que por mim passas
mesmo que não troquemos palavra nenhuma

eu enxergo você


e te enxergando
te amo
te acompanho
te acalmo
te afago
te ajudo
te amparo
através de cada mulher que veio ao mundo
e que também já foi enxergada por outra.

- Aline Nobre


8 de abril de 2018

Te tenho

meu bem,

só de saber que tenho você
todos os outros amores
se tornam insípidos e sem graça

só de saber que tenho você

quando repito que tenho você
jamais pense que o verbo "ter"
é atribuído a posse
ou a latifúndio amoroso

jamais

jamais e pelo contrário

eu quero que o mundo todo possa ter o prazer
de desfrutar da maravilha que é você

o verbo "ter"
em nós
ganhar novo sentido

te tenho porque te sinto
porque te assumo
porque te ocupo
porque demonstro
porque me apego

te tenho
porque te ter
é o meu presente mais certo.

(Aline Nobre)

8 de fevereiro de 2018

MORTE E VIDA SEVERINA

sertão é vida
mas nem sempre

sertão é aconchego
sossego
apego
mas nem sempre

sertão é ninho
cantinho
carinho
mas nem sempre

sertão é segurança
vizinhança
confiança
mas nem sempre

sertão é tranquilidade
liberdade
diversidade
mas nem sempre

sertão é vida
mas nem sempre

sertão não é sossego
aconchego
e nem apego
pra quem resolve pensar fora da caixa e enfrentar algumas mazelas que nele ainda existem

sertão não é ninho
cantinho
e nem carinho
pra quem resolve ser o que se é, quando não se é aquilo que os outros esperam

sertão não é segurança
vizinhança
e nem confiança
pra quem sente medo de se mostrar e levar dois tiros de cada olhar que passar pela sua rua

sertão não é tranquilidade
liberdade
e nem diversidade
quando o ser diverso vai contra os costumes patriarcais que ainda pairam pelo chão seco

sertão nem sempre é vida
mas deveria.

Aline Nobre, sobre os sinais de morte que matam ainda em vida.

5 de fevereiro de 2018

[NÃO SE PODE ESQUECER AS VIDAS CEIFADAS]

choveu no sertão
tudo brotou
tudo floriu

mas em meio a todo verde
havia um cinza
um mandacaru
que não resistiu

não por ser menos forte
menos resiliente
ou menos capaz

talvez a seca pra ele
no seu pedaço de chão
tenha sido mais intensa
mais voraz


é bonito de se viver
um sertão com tanta vida

mas eu não consigo esquecer
aquele mandacaru seco
aquele cinza.

- Aline Nobre

15 de janeiro de 2018

A mulher do tempo

ela tem uma ligação intrínseca com o tempo

não necessita de horas, minutos ou segundos
para lidar com ele

números não servem de nada
quando se tem uma conexão assim

ela saúda o tempo
como uma devota faria

ela é certeira
na umidade do ar que sai de suas narinas
na direção do vento que sopra os seus cabelos
na temperatura ambiente do abraço bem dado
no suor das mãos entrelaçadas
na velocidade das batidas do coração ao avistar quem se deseja

seu tic-tac não tem precisão cronométrica

ela passeia vagarosa
o seu tempo é outro.

- Aline Nobre

2 de janeiro de 2018

Eu ressignifiquei você

eu ressignifiquei a vida
o amor
o afeto
a amizade

eu ressignifiquei você
e já não me sinto mais carente

eu ressignifiquei o abraço
a atenção
o carinho
a união

eu ressignifiquei você
e já me vejo mais contente

eu ressignifiquei os laços
os nós
os apegos
as ligações

eu ressignifiquei você
e eu já não mais me iludo

eu ressignifiquei tua voz
teu cheiro
teus gostos
tua respiração

eu ressignifiquei você
e já não és mais meu tudo

e te ressignificando
dei novo sentido à mim
e a tudo que me forma
(e me reforma)

me ressignifiquei.

- aline nobre

24 de dezembro de 2017

La Niña

chegaste como uma chuva de pré-estação
incerta
imprevisível
inconstante

e eu
feito planta da Caatinga que sou
brotei
floresci
logo nos teus primeiros sinais.

- Aline Nobre

21 de dezembro de 2017

Te vejo

glândula pineal
é o órgão dos sonhos
das visões
da imaginação

em algumas culturas
é conhecida como terceiro olho
ou chacra frontal,
ou Ajña
ou Olho de Hórus

mas independente do nome
eu só queria dizer
que o meu terceiro olho
(todos os dias)
só tem visto você.

- Aline Nobre

19 de dezembro de 2017

Dois anos da 3ª Conferência Nacional de Juventude: O que conquistamos?



No dia 19 de dezembro de 2015 se encerrava a 3ª Conferência Nacional de Juventude em Brasília-DF que tinha como tema "As várias formas de mudar o Brasil". A 3ConfJuv teve um processo bonito e participativo de construção. As discussões das propostas ocorreram em todas as etapas da conferência: municipais, estaduais, livres e digital. Foram centenas de jovens de todo o Brasil sonhando e construindo Políticas Públicas para Juventude que refletem suas realidades. Foi bonito de se viver!
A Pastoral da Juventude incentivou os jovens dos seus grupos de base a participarem de todas as etapas, e assim fizemos. Fomos a maior delegação desta conferência e nela buscamos defender nossas bandeiras de promoção da vida da juventude. A Esperança era a palavra da vez.
Jovens de todo o Brasil tiveram a oportunidade de falar quais as políticas públicas a juventude do Brasil quer e precisa. Dos dias 16 a 19 de dezembro de 2015 a juventude do Brasil gritou numa só voz “Não vai ter golpe”, gritou pelo fim da polícia militar, gritou pela diversidade, gritou pela justiça, mas infelizmente os nossos gritos não foram ouvidos. Hoje a Esperança que se via nos olhares das juventudes já não brilha tanto quanto há dois anos atrás.
O Plano Nacional da Juventude deveria ser elaborado a partir do conjunto de propostas que a juventude do Brasil apontou durante aqueles dias. 
As discussões foram organizadas em 11 eixos:  Participação, Educação, Trabalho, Diversidade, Saúde, Cultura, Comunicação, Esporte, Território e mobilidade, Meio ambiente e Segurança. E tínhamos diversas propostas para cada um desses eixos, propostas estas que refletiam a nossa realidade enquanto juventude brasileira.

Além das diversas propostas aprovadas, a juventude do Brasil apontou três prioridades gerais:

1ª Não à redução da maioridade penal, pelo cumprimento efetivo das medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

2ª Ampliar e acelerar o processo de Reforma Agrária e regularização fundiária, bem como reconhecimento e demarcação de terras pertencentes a povos e comunidades tradicionais, em especial das terras indígenas e quilombolas, acabando com as práticas forçadas de remoção de seus territórios. Assim, viabilizando a regularização da documentação de assentamentos já existentes, permitindo que os jovens tenham condições de permanecer ou regressar as suas terras originais, e serem assim contemplados pelos programas, projetos e ações para a juventude rural.

3ª Garantir a implantação do Sistema Nacional de Juventude composto por órgãos gestores, conselhos e fundos de públicas de juventude, nas três esferas administrativas. O fundo nacional de juventude funcionará com repasses fundo a fundo definido percentualmente entres os três entes federados para direcionar as políticas e ações para a juventude em âmbito nacional, estadual e municipal.

Dois anos após o início desta conferência eu convido cada uma e cada um a reler as propostas eleitas, a analisar as urgências de cada uma e a pensar: A juventude tem voz no Brasil?

Nós dissemos NÃO à redução da maioridade penal. Fomos ouvidos?
Nós pedimos Reforma Agrária e o Governo Temer tenta extinguir Reservas Nacionais e facilitar a entrada de mineradoras na Amazônia.
Nós pedimos investimentos na juventude e o Governo congela as verbas para saúde e educação por 20 anos.
Nós pedimos promoção da saúde integral da mulher e a bancada evangélica da Câmara aprova PEC que, proíbe o aborto até em casos de estupro.
Nós pedimos o Plano Nacional de Enfrentamento aos Homicídios que combata o extermínio da Juventude e em 2017 as mortes associadas às intervenções policiais cresceram 60%.
Nós pedimos a Reformulação do Ensino Básico e Médio democratizando e humanizando as escolas, incluindo debates como: gênero, igualdade, justiça social e liberdade, e ao invés disso é aprovado uma reforma do Ensino Médio que reduz ainda mais a possibilidade de avanço dos jovens de escola pública a “Escola sem Partido” avança, que na verdade é mordaça contra realização plena do educando.
Nós pedimos transporte público e gratuito de qualidade e ao invés disso as tarifas de transporte público só aumentam e a qualidade só diminui.
Nós pedimos a aprovação de uma lei que defina os crimes de ódio e de intolerância e as formas de coibi-los e ao invés disso temos um pré-candidato à presidência que grita aos quatro cantos do Brasil seus discursos de ódio e intolerância e ainda tem aprovação de uma parcela da população.
Nós dissemos NÃO ao uso de agrotóxicos e a Rede Globo tenta colocar na cabeça das pessoas que o “agro é pop”.
Nós pedimos a democratização da mídia e ela continua insistindo em manipular a população.
Nós pedimos acesso à cultura para a juventude periférica e chega no Senado uma proposta de criminalização do funk.
Nós pedimos emprego de qualidade e a proibição da terceirização em todas as suas formas e é aprovada a Reforma Trabalhista que retira direitos dos(as) trabalhadores(as).


Segue abaixo as prioridades eleitas para cada eixo temático:

Eixo Saúde: Promover a saúde integral da mulher jovem, sem seguir a lógica da medicalização e intervenção sobre o corpo. O sistema de saúde deve lidar com a prevenção da saúde das jovens, incluindo atendimento relacionado a abortos, que hoje é a quinta causa de mortes no país, o Estado deve tratar do caso como saúde pública garantindo-lhes atendimento ginecológico preparado.

Eixo Segurança: Criar um Plano Nacional de Enfrentamento aos Homicídios que combata o extermínio da Juventude Negra, dos Jovens de Povos e Comunidades Tradicionais, que vise a desmilitarização e a federalização das policias, fim dos autos de resistência, acesso à justiça, e formação específica em Direitos Humanos e Cidadanias voltados ao atendimento aos Povos e Comunidades Tradicionais, que visem eliminar ações repressoras por mecanismos de abordagem humanizados que respeitem as especificidades de identidade de gênero, raça/etnia, tradições e orientação sexual. Fortalecer e fomentar e ampliar o “Plano Juventude Viva” com um recorte específico para: Jovens negros, jovens PCTs, jovens LGBTs, respeitando os recortes de gênero e garantindo a participação direta e indireta do plano destas juventudes como forma de estimular a valorização destas identidades combatendo preconceitos e opressões.

Eixo Educação: Reformulação do Ensino Básico e Médio desde a matriz curricular à formação dos professores, democratizando e humanizando as escolas, incluindo debates como: gênero, igualdade,
justiça social e liberdade; ampliando a carga horária de disciplinas tais como: filosofia, sociologia e história, possibilitando, assim, o senso crítico e político dos estudantes.
Eixo Território e Mobilidade: Criar e implementar o Fundo Nacional e Inter federativo de mobilidade para todos os jovens, para subsidiar a tarifa zero, garantindo um transporte publico, gratuito, de qualidade, e acessibilidade em toda a frota, fazendo se cumprir o artigo 31, parágrafo único do estatuto da juventude.

Eixo Participação: Garantir a implantação do Sistema Nacional de Juventude composto por órgãos gestores, conselhos e fundos de políticas públicas de juventude, nas três esferas administrativas. O fundo nacional de juventude funcionará com repasses fundo a fundo definido percentualmente entres os três entes federados para direcionar as políticas e ações para a juventude em âmbito nacional, estadual e municipal.

Eixo Diversidade: Aprovar lei que define os crimes de ódio e de intolerância e as formas de coibi-los, nos parâmetros de outras leis tal como a de crime de racismo, para proteger todas as pessoas, inclusive jovens, independentes de classe e origem social, condição de migrante, refugiado ou deslocado interno, orientação sexual, identidade e expressão de gênero, idade, religião, situação de rua e deficiência.

Eixo Meio Ambiente: Combater o uso e abuso dos agrotóxicos, fortalecendo a sustentabilidade através da agroecologia, por meio de programas sociais para a agricultura familiar e a Juventude Rural, com ênfase na compensação econômica em contrapartida à preservação ambiental, assistência técnica, acesso ao crédito e Reforma Agraria.

Eixo Comunicação: Democratização da mídia modificando a legislação atual para que as rádios comunitárias tenham alcance igualitário das rádios comerciais. Regulamentar e democratizar a mídia do país, revendo os modelos de financiamento e concessão pública de TV, a partir da atualização e efetivação do marco regulatório da comunicação, respeitando a constituição de 1988 no que tange ao artigo 220, revogando o caráter consultivo do Conselho Nacional de Comunicação, alterando a sua composição permitindo a participação paritária da sociedade civil e governo e replicando este modelo de conselho no âmbito estadual e municipal.

Eixo Cultura: Garantir a construção, manutenção, ampliação e requalificação dos equipamentos culturais, promovendo a acessibilidade, sustentabilidade e participação social nas periferias, distritos, zonas rurais, comunidades tradicionais, povoados e assentamentos, descentralizando as ações de juventude e oferecendo espaços adequados, bibliotecas, sob consultoria especializada, para as diversas linguagens culturais: teatro, audiovisual, hip hop, dança, artes, artesanato, música, poesia dentre outras. Viabilizando a criação e fomento de grupos culturais tais como artesãos, grupos de dança, teatro e as demais expressões artísticas e culturais, priorizando os artistas municipais e a promoção de atividades itinerantes descentralizadas, incentivando programas culturais em escolas e associação de moradores, bem como a criação de editais sob a forma de prêmios (com prestações de contas facilitada E ESPECÍFICA PARA PCTs).

Eixo Trabalho: Garantir o acesso ao 1º emprego com qualidade; Reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais; Proibir a terceirização em todas as suas formas.

Eixo Esporte: Criação do Fundo Nacional de incentivo ao esporte, com base orçamentaria de 2% do PIB, fortalecendo conselhos e secretarias de esporte, para ampliar os equipamentos esportivos e desenvolver programas de incentivo ao esporte, como iniciativas regionais e o Bolsa Atleta.


Sim, existem várias formas de mudar o Brasil; em 2015 a juventude brasileira apontou várias delas, mas infelizmente não nos deram ouvidos.
E o Brasil segue mudando, mas ao invés de promover a vida da juventude, o Brasil segue avançando no caminho da criminalização e da morte dela.

O caminho da vida só pode ser traçado quando sabemos de qual lado estamos.
De qual lado você está?
Do lado da juventude ou do lado dos que tentam nos calar?


Por Aline Nobre.

17 de dezembro de 2017

Pós-cirurgia

(À Hannah)

a mulher ainda está inteira
mesmo que sem uma parte
a mulher está viva
inteira
total

inteiramente mulher
apesar da dor
(a dor é feminina)

o corpo se adaptará
ela também
no seu tempo

é preciso bem mais que uma ablação
pra matar a mulher que vive dentro.

- Aline Nobre