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28 de fevereiro de 2019

Uma voz serena


Dona Francilene morava sozinha numa casa muito simpática na rua da Prefeitura, perto o Bar da Erivanda, mas eu não a conhecia e nem tampouco tinha ouvido falar nada sobre ela.
Aconteceu que eu fui tocar violão numa missa de domingo, como faço de costume, e ela estava lá. Ela era uma dessas senhoras que parece que já fazem parte da arquitetura da igreja, como a imagem de Jesus crucificado, como os bancos, como o altar, como os ventiladores de parede. Ela sempre estava lá, sentada nos bancos do meio, misturada com os demais fiéis.
Mas neste dito domingo no final de 2015 ela deixou de ser apenas mais um elemento do ambiente dominical. No final da missa, quando eu estava apressadamente guardando o violão na capa, ela resolveu que era o dia de entrar na minha vida. Se achegou perto de mim, como quem queria conversar, e eu deixei. Ela começou a falar timidamente sobre eu tocar violão, me elogiou, eu agradeci e então ela chegou onde queria chegar: “eu também tocava violão quando era jovem”. Fiquei surpreendida e me interessei mais ainda pela conversa. A conversa não se alongou muito, mas resultou num convite pra eu ir ver o seu violão em sua casa.
            Demorei umas semanas pra finalmente visita-la e então ela me ligou reforçando o convite. E eu fui. Ela comprou guaraná especialmente pra mim, assim como fez todas as outras vezes que eu a visitei. Descobri que ela ainda tocava violão muito bem, inclusive melhor que eu. Pegava músicas de ouvido, me ensinou notas que “combinam”, tocou músicas de cantoria acompanhada das histórias de juventude que marcaram tais músicas, me mostrou os tapetes que ela fazia com retalhos de tecidos, os guarda-chuvas que ela concertava, contou sobre os seus dedinhos pequenos que foi um “mal” de nascença, falou como aprendeu a tocar violão, falou dos seus sonhos de juventude, do remédio novo que o médico tinha passado, sobre sua vinda pra Banabuiú sozinha, sobre um sobrinho que morou com ela uns dias e de mais um punhado de histórias.
            Na páscoa eu fui na casa dela de surpresa entregar uma lembrancinha que tinha feito com uns sabonetes e ela ficou tão agradecida que ficou sem graça, procurando algo pela casa pra me retribuir até que eu finalmente convenci de que ela não precisava me dar nada. Neste dia tirei uma foto sem que ela percebesse dela tocando violão.
            Eu fiz uma anotação mental pra me lembrar de comprar um dominó pra presenteá-la, pra que a gente jogasse quando eu fosse lá, mas acabei esquecendo.
            Minhas visitas começaram a ser menos frequentes. A faculdade começou a apertar e então eu comecei a ficar mais em Quixadá do que em Banabuiú. Ela as vezes me ligava e eu a encontrava nas missas dominicais, até que ela parou de ir à missa. Soube que ela não estava bem da saúde. Fiz uma outra nota mental de ir visita-la. Demorei e não houve tempo. Recebi a notícia. Era 2017.
            Passei muitos dias me sentindo mal e me lamentando por não ter estado com ela em seus últimos momentos e ao mesmo tempo grata por tê-la conhecido e me deixado cativar por aquela senhora tão doce. Quis escrever um poema, mas não consegui.
            Hoje enquanto eu caminhava na pracinha da igreja, as lembranças dela me atingiram em cheio e ficaram ecoando no meu peito. Decidi que além de guardá-la no peito, preciso guardá-la nas palavras também.
            Esta é Dona Francilene. E sou muito feliz de ter sido sua amiga.

9 de julho de 2018

EU NUNCA FIZ DIETA


Quase todo mundo que conheço já fez dieta alguma vez na vida, seja por motivos de saúde, para perder uns quilos ou até mesmo para ganhar uns quilos, mas eu nunca fiz, e acho que isso diz muito sobre mim.
Eu sempre estive “acima” do peso segundo o que a sociedade diz ser o peso ideal, e seria mentira eu dizer que isso nunca me incomodou, porque incomodou, principalmente na adolescência que é quando as pressões para se enquadrar nos padrões sociais são mais intensas e cruéis, mas nem isso fez com que eu abrisse mão de ser quem eu sou para ser quem os outros esperam que eu seja.
Houve uma época em que eu não gostava nada do meu corpo, justamente por ele ser de diversas maneiras fora dos padrões; não tinha a forma ideal, o tamanho ideal, a cor ideal, a quantidade de pelos ideais, a textura ideal, nada era ideal segundo os padrões associados a uma pessoa do sexo feminino e adolescente, e foi dolorido aceitar que esse corpo era meu único lar possível.
Ser gorda, negra e peluda foi por muito tempo dolorido, mas hoje, uma pouco mais livre das influencias sociais e um pouco mais empoderada do meu eu, ser gorda, negra e peluda é orgulho e resistência. Tenho orgulho do meu lar.
Acredito que essa força para me manter resistente foi algo interior e íntimo, mas sei que só encontrei sentido nela quando conheci outras mulheres que também pensam assim, mulheres fortes, lindas e livres que em sua maioria foi o movimento feminista me apresentou.
Com essas mulheres eu aprendi que ser chamada de gorda não é xingamento e nem sempre é um comentário pejorativo, e eu sou gorda. Com essas mulheres eu aprendi que ser peluda não é um problema a ser solucionado, que ter pelos no rosto, nos braços e sobrancelha grossa não me tornam menos mulher e que esses pelos fazem parte de mim e não são nada feios, e eu sou peluda. Com essas mulheres eu aprendi que a cor da minha pele é bela, não sou morena, nem mulata e nem da cor do pecado, eu sou negra e minha pele é símbolo de luta, resistência e subversão.
E é por isso que eu preciso do feminismo. Me entendem? Eu preciso do feminismo para ser eu de maneira integral. Eu preciso do feminismo porque eu não quero precisar cortar partes minhas para me sentir aceita, porque eu já me aceito. Eu preciso do feminismo porque preciso me sustentar em outras mulheres para me sentir mais forte.
Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres negras tenham orgulho de a serem. Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres peludas tenham orgulho de a serem. Eu preciso do feminismo porque eu desejo que todas as mulheres gordas tenham orgulho de a serem.
Eu preciso do feminismo porque eu nunca fiz dieta.

Aline Nobre

15 de novembro de 2017

Morar no Interior – Parte 2

Morar no interior é ir deixar geleia de mocotó na casa da minha avó e quando sair de casa vê que minha mãe e minha irmã estão jogando baralho na mesa da cozinha. Morar no interior é no caminho da casa da minha avó vê que três das minhas vizinhas estão jogando dominó na calçada de uma delas e cumprimentar cada uma pelo nome. Morar no interior é chegar na casa da minha avó e avistar ela sentada numa cadeira de balanço observando o vai e vem das crianças da rua. Morar no interior é minha avó conhecer todas as crianças pelo nome e chamar uma delas que estava andando de bicicleta pra falar comigo e perguntar se ela lembra de mim. Morar no interior é essa criança parar pra conversar com a gente a cada volta que ela dá na bicicleta e contar das variadas histórias e aventuras que uma criança de 5 anos já pode ter vivido. Morar no interior é nessas pequenas conversas com o menino de 5 anos já saber seu desenho favorito, do corte de cabelo que ele fez essa semana, da bicicleta que ele ganhou ontem, das rasteiras que ele aprendeu a fazer com a bicicleta nova, do tema do seu aniversário de 5 anos, da escola que ele estuda, da escola que ele vai estudar ano que vem e mais um monte de coisa. Morar no interior é se interessar pelas histórias desse menino de 5 anos. Morar no interior é falar da viagem que minha irmã fez pra minha avó e quando ela pergunta quem é o motorista eu dizer que é o irmão da mulher do Antonio que é filho da mulher que mora em frente à praça. Morar no interior é minha avó saber imediatamente de quem eu estava falando. Morar no interior é falar com a minha avó das várias teorias sobre a explosão do banco e até a criança que brinca na calçada poder dar sua opinião sobre o ocorrido. Morar no interior é ouvir o que a criança tem pra falar. Morar no interior é na volta da casa da minha avó passar na casa da minha tia. Morar no interior é comer pão recheado com doce de leite caseiro na casa dessa tia. Morar no interior é se aproximar de casa e vê que agora tem mais gente jogando dominó na calçada da vizinha e ouvir as risadas ainda de longe. Morar no interior é ao chegar em casa escutar meus pais falando do roubo de um cabrito. Morar no interior é quando chegar em casa e ligar o wi-fi do celular ter uma mensagem de um amigo do ensino médio chamando pra ir na lanchonete. Morar no interior é chagar na lanchonete e ver outras quatro amigas do ensino médio se encontrando e ir abraça-las e falar dessa coincidência. Morar no interior é conhecer a dona da lanchonete pelo nome e falar com ela sobre a vida. Morar no interior é estar na lanchonete e passarem duas amigas de moto e pararem pra conversar com a gente. Morar no interior é voltar pra casa com o coração feliz por ter essa vida cheia de simplicidade e amor. Morar no interior é viver tudo isso que eu falei em uma noite e em menos três horas. Morar no interior é morar onde a vida acontece de verdade.


Aline Nobre (17/11/2017)

9 de novembro de 2017

Eu me exponho demais

Durante uma conversa com uma pessoa que eu acabara de conhecer, utilizei a frase "eu me exponho demais" mais vezes do que eu gostaria. O que isso quer dizer? 
Percebi que aquela não foi a primeira vez que eu utilizei essa expressão, e notei que tenho a usado com bastante frequência nos últimos tempos. E me analisando bem, essa frase tem um teor bastante positivo pra mim. Acho que tenho um desejo desesperado de que as pessoas não se enganem sobre quem sou. 
E você pode se perguntar: "como assim?", e eu te explico: 
Antes de criar qualquer laço com alguém, eu quero que a pessoa tenha certeza de onde ela está se metendo. Eu sou uma louca, gente, é sério. A ideia de alguém gostar de mim por algo que eu não sou me dá ânsia, por isso prefiro não bancar a misteriosa. Não é algo simplesmente involuntário. Foi uma decisão (talvez involuntária) que tomei em algum momento da vida e ela faz muito sentido pra mim.
As vezes penso: mas será que todo mundo merece mesmo me conhecer assim? E vejo esses resquícios de egoísmo que pairam sobre mim e na mesma hora me rebato: eu sou mesmo é domínio público, não posso me privatizar. Todas as minhas personas devem me levar à mim. Mentir sobre si é uma autotraição.
A maior vaidade que existe é a mentira. Acho que todas as vaidades surgem dela. Qual o motivo de você se esconder, se sonegar? É vaidade. Quem se esconde, provavelmente não gosta do que se é. Não de verdade. Eu gosto de quem sou, talvez seja por isso que eu me exponho tanto.
Eu me exponho com minha risada exagerada, com minha atenção exagerada, com meu abraço exagerado, com meu entusiasmo exagerado, com meus textos exagerados, com a minha indignação exagerada, com meu eu exagerado. Eu sou um exagero, mas não dá pra fugir da sina inevitável que é ser eu, então aceito a condição. E sigo, junto com aquelas(es) que valem à pena.
Desculpa o textão, eu sei, mas é que eu me exponho demais.

Por Aline Nobre

25 de outubro de 2017

Exaustão

Hoje eu estava bem exausta da vida e de tudo que me tira a paciência. Um colega do trabalho percebeu e me fez uma dessas perguntas difíceis que não se dá pra responder sem passar por uma análise da vida que vivemos: “alguma vez você já tirou um tempo só pra si, sem ter que se preocupar com nada?” e essa pergunta está ecoando em mim até agora e infelizmente a resposta é: não.

É fato que pouca gente se dá “ao luxo” de ter um tempo só para si, mas é fato também que todo mundo precisa desse tempo.

Nós vivemos em mundo imediatista, ligeiro e fugaz, que não espera por quem não pretende alcançar a sua velocidade. Não é à toa que a ansiedade seja uma patologia cada vez mais comum, esse modelo de sociedade adoece e mata.

A sensação de globalização, de proximidade, de ter o mundo nas mãos e de ter acesso a qualquer coisa e a qualquer hora, fez de nós pessoas impacientes, impessoais e impotentes. No passo que temos acesso “a tudo”, quando algo sai do nosso controle ou não gera respostas tão imediatas, começamos a nos sentir fracos e incapazes de nos mover.

O sentido do processo e do caminho foi-se perdendo. Esperar já não é uma opção possível para a maioria. Por que tirar um tempo para si, sendo que que os outros ganharão vantagem durante esse tempo? Por que aguardar os sentimentos ficarem claros, se você pode partir para outra? Por que esperar ter certeza da escolha, se o relógio da vida está acelerado e você está ficando para trás?

Você entende que essa lógica é doentia?

Eu quero ter tempo para andar de pés descalços na areia e sentir a energia solar, eu quero ter tempo para entender quem eu sou e o que eu quero fazer de fato na/da vida, eu quero ter tempo para amar e fazer coisas que amo sem a sensação de culpa e de está desperdiçando minha vida. Eu quero poder escrever sobre o que sinto sem me culpar porque amanhã tenho uma prova e ainda não estudei o suficiente e eu não consigo me concentrar porque a vida é mais pesada do que parece.

Eu não quero a resposta imediatista do whatsapp, não quero a instantaneidade das relações virtuais, não quero ganhar no jogo do desinteresse e nem quero a efemeridade de amores vertiginosos.


É pedir muito querer uma vida com tempo para viver?

- Aline Nobre

27 de setembro de 2017

Gente de bem?

"Travesti Dandara foi apedrejada e espancada a tiros no Ceará"

"Expectativa de vida de uma mulher trans não ultrapassa os 35 anos na América Latina"

"Em 2016, a Rede Trans Brasil apurou que 64 transexuais e travestis tentaram se matar porque não conseguiram ter respeito social"

E essa “gente de bem” comemora e fala: “eles tem que ter vergonha mesmo”, “eles são umas aberrações”
Mas ei, pessoa de bem, aberração é seu preconceito!

"Uma morte LGBT acontece a cada 28 horas motivada por homofobia"

E essa “gente de bem” fala: “tudo bem ser viado, mas que seja longe de mim”
Mas ei, pessoa de bem, você podia cuspir seu ódio longe de todo mundo também

"Dados mostram que 59% das vítimas de homofobia conheciam o agressor e que o local mais frequente de agressão é em casa"

E essa “gente de bem” fala: “Eu não tenho preconceito, mas se filho meu for gay, na minha casa ele não fica”
Mas ei, pessoa de bem, você mata mais que muita doença por aí

"Se você se declarar homossexual, a possibilidade de doar sangue é quase nula"

E essa “gente de bem” fala: “Deus me livre de receber sangue de um viado”, “ele é cheio de doenças, deve ter AIDS”
Mas ei, pessoa de bem, você sabia que nos últimos anos a incidência de doenças sexualmente transmissíveis tem crescido na população heterossexual e não na homossexual

"Uma estatística aponta que 90% das travestis e transexuais abandonam a escola"

E essa “gente de bem” fala: “ainda bem”, “imagina se minha filha tem que conviver com esse tipo de gente”
Mas ei, pessoa de bem, não é você que diz que ama ao próximo? não é você que é a favor da educação?

"Mulher é morta na frente de namorada após ofensas homofóbicas"

E essa “gente de bem” fala: “Mas elas querem ser sapatão na frente de todo mundo, vê se pode?”
Mas, ei, pessoa de bem, isso pode sim, pode muito! por acaso o amor alheio te ofende?

Porque você me ignora?


- Aline Nobre

13 de setembro de 2017

Todos vocês mulheres

Há quem diga que eu gosto de problematizar tudo, já eu fico super orgulhosa de mim cada vez que escuto isso, porque sei que estou de alguma forma contribuindo para o crescimento crítico meu e das outras pessoas. Pois bem, lá vai mas uma problematização.
Participei recentemente de uma formatura de graduação lindíssima, onde a turma que se formava era composta somente de mulheres. Que avanço, não?! Senti no peito um profundo orgulho em saber e comprovar o quanto as mulheres vêm avançando no mundo, nas profissões, no mercado de trabalho e ver que a cada dia mais mulheres se antecipam e se tornam protagonistas das suas vidas. Pois bem, foi um momento maravilhoso, mas fiquei muito inquieta em vários momentos do evento por um motivo: a falta da flexão para o gênero feminino nas falas.
Desde o início do evento, tanto as falas do cerimonialista, quanto os discursos e falas gerais pareciam esquecer que a turma era formada somente por mulheres. Falavam “os formandos”, “todos vocês”, “cada um” e por aí vai. A cada vez que se referiam a turma no masculino eu falava pra minha mãe, que estava do meu lado “MAS SÓ HÁ MULHERES NESSA TURMA!”. Vez ou outra, alguém acertava e/ou se corrigia ao perceberem esse detalhe, mas no geral, mais se falou delas no masculino do que no feminino.
Pode ser que alguém ache isso uma besteira, e ache que eu me incomodo demais e vejo machismo em tudo. Mas é isso mesmo, eu me incomodo, e sim, há machismo em tudo. Já outras pessoas dizem que “o mundo tá ficando chato” a cada vez que chamamos atenção para essas questões. Se para o mundo ser legal ele precisa ser preconceituoso e injusto, eu prefiro mesmo que o mundo seja chato e livre de preconceitos e injustiças.
Eu penso que, sim, nós mulheres já conquistamos muito, mas que ainda há muito o que se conquistar, e é através dessas pequenas coisas que a gente vai conseguindo construir um mundo com mais equidade de gênero, mais respeito e que realmente pense sobre causas como essa de maneira consciente.
A flexão de gênero é algo de extrema importância porque é através dela que, nós mulheres, nos fazemos visíveis nas falas, na escrita e nas histórias contadas. Muita gente deixa de usar por considerar que o texto fica “pesado” ou “cansativo”, e sim, eu concordo, mas enquanto não existir outro meio de nos fazermos existir e sermos vistas, vamos ter que nos utilizar desta maneira. É o que temos.
Fatos como esse da formatura acontecem o tempo todo, e a construção do vocabulário tem grande culpa nisso. O vocabulário é feito por uma sociedade, e quando a sociedade é racista, machista, misógina e cheia de outros preconceitos, é de se esperar que o vocabulário carregue também essas características. Mas assim como estamos conseguindo avançar nas diversas áreas da sociedade e do conhecimento, é possível também avançar e modificar essas construções culturais e conceituais existentes.
Lembremos que o português é uma língua viva e que está em constante transformação, e que se for preciso reforma-la, façamos esta reforma.
E é por isso que é importante a existência de gente pra problematizar o que não tá certo, pois só assim a discussão é colocada em pauta e tem a oportunidade de amadurecer e gerar frutos positivos através da transformação social e cultural. Que fiquemos atentas e atentos. O mundo pode melhorar sim, e a transformação se faz primeiro na consciência de cada um e de cada uma.

Por Aline Nobre

2 de agosto de 2017

“Nos falamos, mas foi meio em silêncio”

Sabem aqueles relacionamentos complicados que perpassam vários anos sem se definirem do que se tratam? Pois é, conheço vários desses. Normalmente se perderam na linha tênue entre romance e amizade, e é difícil sair de cima dessa linha, para qualquer que seja o lado.

Estava conversando com uma amiga que vive um relacionamento assim e no meio da conversa sobre essa relação, ela disse a seguinte frase: “Nos falamos, mas foi meio em silêncio”. Que frase forte! Se falaram meio em silêncio. Quantas vezes já passamos por isso?

Às vezes silenciamos para evitar desgaste, porque em algumas relações a gente “se desentende no instante em que fala”, como Belchior fala em uma canção. A gente fala meio em silêncio com nossa família o tempo todo, é na hora do almoço, no aniversário dos avós ou na ceia de natal. Esses silêncios que pronunciamos a todo momento, apesar de evitarem discussões, na maioria das vezes são prejudiciais, porque também evitam a convivência sincera.

Outras vezes silenciamos porque não existem palavras que possam suprir a intensidade do que se viveu. São silêncios escassos de palavras, mas repletos de sentimentos. Silêncios que acompanham olhares, toques, confiança e coração acelerado. Esses, sim, valem totalmente à pena, porque palavras provavelmente não acrescentariam nada.

Ainda existem os silêncios que significam presença. Esse silêncio é dito na maioria das vezes para amigos e amigas que só precisam de presença sincera, sem necessidade de palavras. Esses silêncios costumam ser o ápice de relações de amizade. São declarações de amor ditas no abraço.

Já vivi diversos outros silêncios também; silêncios de finais, silêncios de começos, silêncios de desconforto e silêncios de prazer. Todos esses silêncios vividos não podem ser registrados em cadernos, álbuns, melodias ou gestos, podem somente ser lembrados como pequenos instantes em que a vida esqueceu o roteiro. E a gente? A gente ficou sem fala.

Um silêncio vale mais que mil palavras.


Por Aline Nobre

3 de julho de 2017

O Apagão

A queda de energia é bem comum em cidades do interior, principalmente, nas menores. Lembro que, na minha infância, quando faltava luz, era uma alegria só, já tínhamos o protocolo a seguir nessas ocasiões: todas as crianças da rua logo corriam para um prédio da igreja que era o ponto de encontro, se fazia uma grande ciranda e era só alegria. Os adultos ficavam na calçada com suas velas, lanternas e faróis ligados, enquanto as crianças só precisavam da luz da lua – coincidentemente, sempre era noite de lua – para clareá-las enquanto a energia não voltava.
Ontem, aconteceu um episódio desses na minha cidade. Não haviam mais crianças brincando na minha rua, - uma boa reflexão que também pode ser feita - mas, felizmente, não se perdeu o encanto que apagões causam no interior.
Lembrei do verso de um poema que eu mesma escrevi no último apagão que tinha acontecido: “o apagão acendeu o céu”, só que, dessa vez, o apagão foi muito mais significativo pra mim, pois ele não somente acendeu o céu; ele proporcionou encontros e convivências sinceras entre pessoas.
O apagão acendeu o céu de tal forma, que parecia um show de astros no céu. Foi uma linda noite de lua crescente, havia um pequeno halo na lua que a tornou mais especial ainda. Pude identificar a constelação de escorpião facilmente, antes do céu ficar nublado. Vi uma estrela cadente e também dois aviões a sobrevoar. Que noite!
Mas como havia falado, acender o céu não foi a coisa mais extraordinária da noite, mas sim a convivência. A falta de TV e Internet acenderam a comunicação. Quem diria? A comunicação sendo feita pela ausência dos meios de comunicação.
Na hora que começou o apagão, eu não estava em casa, mas logo que cheguei, avistei todo mundo na calçada batendo papo, como nos velhos tempos. Depois jantamos todos à luz de velas, uma diversão!
Quando acabei de jantar, passei horas no quintal com minha sobrinha ouvindo música com o restante da bateria que sobrou do celular. Observamos o céu, falamos de astros, de sonhos, de vida. Fiquei impressionada o quão inteligente pode ser uma menina de 10 anos. Ganhei a noite!
Não senti falta da energia, da internet, da TV nem de nada. Foi um escape pra mim e acredito que pra muita gente também. Foi uma oportunidade de sair do quarto e entrar na vida.
Espero que não precisemos mais de apagões pra viver noites assim. Que vivamos apagões à luz de postes também.

Aline Nobre

16 de junho de 2017

“Ninguém é obrigado a nada”

Ficar na vida de alguém quando as coisas não vão bem é algo importante? É. É algo bonito? É. É algo admirável? É. É algo obrigatório? Não, não é, e temos que começar a pensar sobre isso.
A gente escuta e reproduz muito aquela frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” e acaba interpretando responsabilidade emocional de forma equivocada. A gente confunde responsabilidade emocional com permanência forçada ou pior, a gente acha que o outro deve curar e lidar com as nossas frustrações, causadas por nós mesmos e pela expectativa que criamos sozinhos acerca do outro e do mundo.
Tenho lido vários textões e artigos de opinião falando sobre isso e a maioria deles tem teor de acusação às pessoas que decidem ir embora da vida de outras, mas o que a gente acaba esquecendo é que na verdade ninguém é brigado a nada, e a gente não pode fazer nada em relação a isso. Não podemos obrigar ninguém a permanecer. De que vale mesmo presença insossa?
Não me interpretem mal, não estou apoiando pessoas que somem da vida de outras “sem ver-nem-pra quê” sem deixar rastros, não concordo com isso, mas apoio o direito de ir e vir de cada um. Acontece que mesmo com os “adeuses” devidamente dados e com as cartas sobre a mesa colocadas, grande parte das pessoas continuam insistindo que os outros têm essa incumbência de lidar com as suas frustrações.
É bonito quando as pessoas querem permanecer e permanecem em nossas vidas apesar de nossas falhas e defeitos? É lindo, e a beleza da coisa é exatamente essa; a pessoa quis ficar. Se a pessoa foi embora, é uma escolha que coube a ela, e temos que aprender a respeitar escolhas diferentes das nossas.
Pode parecer egoísta e um tanto insensível, mas a frase “ninguém é obrigado a nada” tem me feito muito bem. Tenho sofrido menos, julgado menos, esperado menos, criado menos expectativas e me frustrado bem menos depois que comecei a entendê-la e aceitá-la.
Pode ser que você concorde com tudo que eu disse ou pode ser que você me ache uma completa ridícula de pensar dessa forma. Se for a primeira opção, que bom que não sou só eu que penso assim, mas se for a segunda opção, tudo bem, você tem todo o direito de achar isso, afinal ninguém é obrigado a nada.

Aline Nobre (16/06/2017)

3 de junho de 2017

Pessoas Espirituosas

Ando bem crédula na humanidade ultimamente. Todo dia alguém tem despertado minha sensibilidade de forma muito positiva, seja através de um ato, de uma fala, de uma música, de um abraço ou simplesmente de um olhar.
Ontem mesmo aconteceu uma dessas coisas que me fez pensar como através das pequenas coisas você pode ser uma pessoa muito espirituosa. Eu estava em frente a uma faculdade e precisava de uma informação, então perguntei para um rapaz que estava em frente ao prédio e ele se lamentou por não saber informar. Eu agradeci e ia seguir caminhando, até que ele falou: “Meu irmão com certeza sabe. Quer que eu ligue pra ele?”. Eu sorri e aceitei. Ele ligou uma vez, duas vezes, três vezes e o irmão não atendeu. “Espera só um pouquinho, vou ligar pra outra pessoa”. Ele então ligou pra essa outra pessoa que atendeu e me deu todas as informações que eu precisava. Eu agradeci de novo e então segui meu caminho.
Fui caminhando e pensando no ato daquele rapaz, que não tinha obrigação nenhuma de fazer todo aquele esforço pra ajudar uma pessoa que ele nem mesmo conhecia. Ele me ajudou com a disposição de quem ajuda um amigo. Fiquei sorrindo feliz e com a sensação que existe muita gente boa no mundo, que se importa com as outras pessoas, que toma como missão pessoal ajudar ao próximo e a próxima. São pessoas espirituosas.
Quando falo de pessoas espirituosas, não estou falando de religiosidade ou fé, falo dessa bondade que há dentro de algumas pessoas, que muitas vezes não tem religião nenhuma. É bondade pura.
São essas pessoas que são presença divina no mundo, mesmo que elas não acreditem nisso. São essas pessoas que são humanas. Humanas no melhor sentido que a palavra pode carregar.
Provavelmente aquele rapaz nem imagina o efeito da sua ação sobre mim. O quanto ele foi sinal do bem pra mim. Ele nem imagina o quanto ele deve fazer bem pra cada pessoa que ele se dispõe a ser humano pra elas. Espero que alguém já o tenha dito. Ele merece saber.
Acredito que a espiritualidade está nisso; alcançar a humanidade na sua melhor forma. Ser espirituoso é mais sobre ser humano do que sobre ser divino. Como já disse Viviane Mosé “Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo”.


Aline Nobre (03/06/2017)

1 de junho de 2017

Morar no interior

Em uma dessas conversas sobre futuro com uma amiga, começamos a falar da possibilidade de mudar de cidade, das oportunidades que algumas capitais poderão nos proporcionar e da nossa dificuldade de sair do modelo de vida que o interior nos proporciona. No meio dessa conversa me lembrei de episódio que vivi há algum tempo.
Eram mais ou menos 14:00hrs de um domingo. Eu estava recebendo a visita de um amigo em casa e logo após o almoço ele iria embora. Quando fui deixa-lo na porta, avistamos uma menina de uns 2 anos de idade andando sozinha na rua. Eu tinha a impressão de conhece-la, mas não tinha certeza se era mesmo a criança que eu imaginava. Corri para alcança-la e tentei conversar com ela. Perguntei pra onde ela iria e ela começou uma tentativa de explicação na linguagem de crianças de 2 anos que eu só entendi a palavra no final da frase. “Vovó”.
Ela estava afoita, queria chegar logo ao seu destino, não tinha tempo para bater um papo com pessoas inconvenientes como eu que lhe paravam na rua. Como ela não aceitou parar, eu perguntei se poderia acompanha-la até a casa de sua avó. Ela aceitou, pegou na minha mão e continuamos a caminhar.
Eu sinceramente não sabia o que fazer, mas não poderia deixar aquela menininha sozinha e nem podia força-la a ficar comigo. A opção que tive foi acompanha-la. Em menos que um quarteirão de caminhada, haviam duas mulheres na calçada. Uma delas disse: “Olá, Cecília! Pra onde você está indo com Aline?”. Ufa! Alguém que sabia de fato quem era aquela menininha.
Mais uma vez Cecília foi interrompida por uma pessoa inconveniente. Ela não deu muita bola pra mulher, tentou se explicar novamente e me puxou pra continuar sua aventura. Eu então expliquei rapidamente a situação e elas então ligaram para a mãe de Cecília. A menina estava sem paciência, queria chegar em seu destino, mas foi atrapalhada duas vezes.
Em menos de 5 minutos sua mãe já estava conosco. Outra adulta para estragar os planos daquela menina.  A mãe dela explicou a situação, disse que a tinha deixado sobre os cuidados do pai, que dormiu enquanto deveria estar de olho nela, e abriu espaço para essa aventura da menina. Cecília voltou pra casa insatisfeita.

Essa história poderia abrir reflexões sobre diversos temas, poderia terminar falando sobre tragédias que poderiam acontecer, sobre o descuido da maioria dos pais, sobre travessuras que uma criança pode aprontar ou sobre domingos inesperados, mas a reflexão que não consigo parar de pensar é: Como é bom morar no interior.

Aline Nobre 

29 de maio de 2017

Antigos Estranhos

Ontem estava desperdiçando tempo no Facebook quando recebo uma notificação me convidando para curtir uma página de textos autorais. Logo de cara havia uma crônica que falava sobre o tempo, então li, gostei e vi que é de autoria de uma mulher que conheço. Nós frequentamos alguns lugares em comum, temos amigas em comum, temos ideologias parecidas, mas nunca havíamos entrado em uma conversa de verdade, nunca passamos da linha dos bons modos e cumprimentos e eu então por um impulso passei dessa linha e enviei uma mensagem: “Adorei tua crônica naquela página do Facebook” e então começamos a conversar. Falamos de crônicas, poemas e vida. Trocamos crônicas, poemas e vida. E foi ótimo.
Comecei a pensar o quanto o cotidiano muitas vezes nos impede de conhecer gente nova e de buscar novas experiências. O tempo, do qual ela falava em sua crônica, sempre parece pouco pra o tudo que já temos e nos limitamos a ficar no mundo que já conhecemos, porque é mais seguro. Já temos atividades programadas para o dia todo.
Ao mesmo tempo que nos fechamos pra essas novas experiências precisamos reconhecer que tudo que conhecemos um dia nos foi algo estranho. Você nem sempre conheceu a faculdade. Você nem sempre esteve nesse emprego. Sua melhor amiga nem sempre foi sua melhor amiga. Você conheceu seu namorado ano passado. Você nem tinha essas ideias uns anos atrás. Você nem mesmo morava na mesma casa. Tudo foi estranho em algum momento.
Nossa vida é feita de antigos estranhos.
Quando nos abrimos, mesmo que seja um pouquinho, pra qualquer coisa (ou pessoa) que ainda não conhecemos, nós abrimos espaço pra um futuro-antigo-estranho que pode vir a ser um presente em breve. Tenho buscado fazer essa experiência há algum tempo e tem me proporcionado muitas surpresas boas, eu recomendo.
Você pode começar indo ao cinema sozinha, indo a um show de algum artista local que você não conhece, fazer algum curso que você nunca pensou em fazer, sentar na praça ou simplesmente dar um sorriso pra quem senta do seu lado no ônibus. Olhe para os lados e descubra o quanto a vida pode te surpreender.
Você pode ser o antigo estranho na vida dos outros também.


Aline Nobre (29/05/2017)

8 de março de 2016

Dia Internacional da Mulher



Hoje é o Dia Internacional da Mulher, e tem um motivo para a celebração deste dia. É comum ouvir logo cedo piadas sobre o dia, promoções de sapatos e eletrodomésticos e felicitações vazias no rádio e na TV, porém é um pouco mais raro ouvir sobre o real sentido da celebração, mas ainda existem mulheres e homens que se importam em dá a esse dia o verdadeiro sentido que ele tem.
As pessoas associam o 8 de março a muitas coisas, e o real significado acaba sendo ofuscado em meio à flores, sapatos, bombons e geladeiras, que são anunciados como desejos das mulheres; e muitas de nós acabamos desejando.
Meus desejos para esse dia são bem maiores e mais caros e para se fazerem reais não podem ser me dados em apenas um dia, são desejos diários, que devem se realizar no cotidiano.
Eu desejo RESPEITO, mas pra você me conceder esse desejo vai lhe custar caro, vai lhe custar seu orgulho, vai lhe custar admitir que seu respeito não será dado a mim porque você é uma pessoa boa, mas sim porque eu mereço ser respeitada; é um direito meu.
Eu desejo IGUALDADE DE GÊNERO, mas isso talvez lhe custará mais caro ainda, pois você vai ter que engolir seu ego, vai ter que aceitar que a minha capacidade não é menor que a sua, vai ter que parar de me ver como o sexo frágil e admitir minha força, força essa que me fez aguentar e lutar contra toda a repressão e humilhação que vivi a vida toda e continuo vivendo.
Eu desejo RECONHECIMENTO, mas esse reconhecimento também não irá lhe sair barato. Você terá que rever todos os seus conceitos e colocar meu nome nos livros de História, de Física, de Química e em todos os locais que eu fui minimizada somente pelo fato de eu ser mulher.
Eu desejo LIBERDADE, mas ela lhe custará seu machismo. Você não poderá mais me usar como objeto, não achará que tem direitos sobre mim porque eu sou sua companheira, não poderá mais alegar que como eu me visto e para onde saio definem quem eu sou, não mais poderá achar que seus desejos estão acima dos meus e que você, por ser homem, não controla seus impulsos e instintos.
Eu desejo EMPATIA, tão sonhada e rara empatia. Quero que você se coloque em meu lugar, tente me entender e reconheça que todos os meus desejos são genuínos, nobres e necessários.
Desejo que você compreenda que este dia existe pelas minhas lutas de ontem e de hoje, para que num futuro eu já não precise mais lutar, para que num futuro esses desejos já sejam tão reais que não haverá mais razão de existir um dia para lembrar-me dos maus bocados que eu já passei.
Eu estarei aqui quando este dia chegar.


Eu sou todas e cada uma das mulheres.

19 de fevereiro de 2015

Velhice.

Eu estava caminhando na rua, quando me deparo com uma cena pouco comum; um senhor de uns 70 anos sentado na calçada brincando com um vídeo game portátil. Aquilo me chamou tanta atenção e me passou logo pela mente que na velhice voltamos ser crianças.Mas me fez pensar também em como somos sempre os mesmos. Somos aquela criança assustada. Somos aquele adolescente que só se importa em se divertir com os amigos. Somos aquele jovem inconformado com o sistema. Somos aquele adulto que não consegue pensar em outra coisa a não ser em como pagar as contas no fim do mês. Somos aquele idoso carente por alguém com quem conversar. Somos sempre os mesmos, o que muda é como nos mostramos para o mundo em cada fase da vida. O que muda são as nossas prioridades. O que muda são as nossas vaidades. Coincidentemente é na infância e na velhice que temos tempo de sobra, que não podemos sair para ver nossos amigos, que não somos tão cobrados por fazer o que queremos. É na infância e na velhice que mais somos nós, porque só temos a nós.
- Aline Nobre